A Bienal Luzboa é uma iniciativa em que a iluminação é usada como forma de arte nas ruas da capital. Desde alterações à habitual iluminação pública, a instalações que usam a luz para criar um determinado ambiente ou passar uma mensagem, há um pouco de tudo. Este ano, temos até três trajectos que se complementam, o Vermelho, Verde e Azul, ao longo dos quais a iluminação pública tem a cor respectiva e onde podemos encontrar as tais instalações.
O problema é encontrar todas as coisas que há para ver. Vamos ao local do evento, em busca da informação… É todo em flash, mas disso já falámos antes. Na secção de eventos, encontramos um “mapa” com os trajectos e uma breve descrição dos mesmos. Mas… como levo o mapa para o seguir nas ruas da cidade? Não é possível imprimí-lo, porque está em flash! Não que, na realidade, servisse de muito, porque apesar de ser “artístico”, não possui detalhe suficiente para identificar claramente os locais em causa.

Bem, talvez exista um mapa em papel que possamos obter em qualquer lado? E existe! Mais ou menos… No dia da inauguração, consegui uma cópia do mapa. Cheio de esperança abri-o, e qual não é o meu espanto ao ver que, se algo, é pior ainda que a versão online! As ruas da cidade tornaram-se em algo esquemático, mal legendado, e num grafísmo de traços brancos finos sobre um fundo negro. Pensando que se destina a ser seguido na semi-escuridão das ruas à noite, eventualmente por pessoas com alguns problemas de visão (como é o meu caso), algo certamente não está bem.

Houve claramente uma predominância dos aspectos meramente estéticos sobre a usabilidade e acessibilidade. Não que as coisas não devam ser estéticas, mas nunca esqueçamos qual o seu fim último, sob pena de serem estéticas mas inúteis… A usabilidade é, também, uma questão de facilidade de acesso e utilização de informação.
Mas tudo tem solução! Uma das pessoas da organização que estava no jardim do Príncipe Real tinha um documento interno onde… existe um mapa em condições! Uma fotografia digital depois, e está resolvido o problema… Não tinha custado nada usá-lo no local, por exemplo, para quem quiser o descarregar e imprimir.
Escrito na categoria de Usabilidade em 05/09/2006,
por Daniel.
Há dias, procurava uma prenda para oferecer a alguém no seu aniversário: um CD com uma colectânea dos Sisters of Mercy ou Morissey era a escolha preferencial. Percorri os lugares habituais: FNAC, Worten, etc., mas sempre sem sorte: CDs spin-off dos Morangos Com Açucar e coisas semelhantes há muitos, mas não dos artistas que procurava (isto poderia levar a outro artigo inteiro num outro local…). Um pouco chateado, cheguei a casa e lembrei-me: “Ah! Há uma loja da Valentim de Carvalho no Saldanha Residence! Talvez me safe!”. Vãs esperanças, viria a descobrir, mas entretanto, em busca de um contacto da loja para poupar uma deslocação inútil, procurei o local da empresa na Web.
Uma pesquisa no Google deu um bom resultado logo à primeira:

Claramente um resultado “à medida” provavelmente pago pela própria empresa, mas a coisa prometia! “Uma megastore virtual para cybercompras de CDs e cassettes”? Mesmo que não houvesse o tão procurado CD na loja do Residence, talvez fosse possível encomendá-lo! Cheio de entusiasmo, segui o elo… para juntar mais uma frustração às que já tinha tido nesse dia.

O local da Valentim de Carvalho é pouco mais que uma página com informação institucional sobre a empresa. “Megastore Virtual”, se alguma vez houve, já lá não está. Independentemente disso, o próprio design do local deixa muito a desejar. É mais um daqueles locais declaradamente “optimizado para 800×600 pixeis”. Ou seja, completamente rígido em relação às dimensões dos elementos das páginas, fazendo com que o seu aspecto numa outra resolução seja pouco estético, desperdiçando-se imenso espaço que poderia ser usado com informação útil. E, claro, se estivesse a ser visualizado num dos cada vez mais comuns navegadores em dispositivos móveis, cuja resolução fica muito aquém dos 800×600, seria practicamente impossível de usar. Um local bem desenhado adapta-se a todas as resoluções!
Os problemas de usabilidade são mais, mas para não me alongar demasiado, aqui ficam alguns dos mais evidentes:
- Grande parte do texto nas páginas (certamente todo o relacionado com navegação) são imagens, e não texto. Assim sendo, o seu tamanho não pode ser alterado por utilizadores com dificuldades de visão, não são indexáveis por motores de pesquisa, etc.
- Dois elos importantes (aliás, os que me fizeram procurar o local), “Contactos” e “Onde Estamos”, são duas imagens com texto rodado 90 graus, à direita, com legibilidade muito reduzida.
- Há ainda mais outra zona de navegação: o elo “Institucional” que vai para a página inicial, está separado dos restantes (porque para caber tudo em 800×600 assim teve que ser?)…
- Se navegar no local é difícil, através da pesquisa a coisa não melhora… Procurando vários termos que vi no local (incluindo os nomes das secções do mesmo…) nunca produz resultados
Em suma, mais algum cuidado na criação do local, com um mínimo de preocupação com a usabilidade do mesmo teria melhorado substancialmente o local, que é mais um exemplo de algo que tentou ser “muito bonito” à custa da sua funcionalidade.
E quanto ao CD que tinha que comprar? Tive que recorrer à amazon.co.uk, uma vez que em terras lusas não o consegui encontrar.
Referências
[1] Screen Resolution and Page Layout, Jakob Nielsen’s Alertbox, 31 de Julho, 2006
Escrito na categoria de Usabilidade em 14/06/2006,
por Fred.
O Google não para de me surpreender. Depois de ter feito um pequeno investimento no jogo de Itália – Gana, para o Campeonato do Mundo 2006, eis que chego a casa com enorme ansiedade em saber o resultado final. Como descobrir? Google.
A minha ideia inicial era procurar uma página, a partir do Google, dedicada a acompanhar todos os jogos e resultados do campeonato. Por isso, pesquisei por “World Cup 2006”. Foi nesse momento que tive uma agradável surpresa: o Google, uma vez mais, adivinhou o que eu estava à procura. Não tenho dúvidas que esta empresa aposta sobretudo em duas vertentes: Simplicidade e Eficiência.

Isto é um excelente exemplo de “task-oriented GUI”. Ou seja, Interface Gráfico orientado à tarefa do utilizador. Neste exemplo, a conclusão da minha tarefa esteve apenas a 1 click de distância. Incrível.
Escrito na categoria de Usabilidade, Acessibilidade em 08/06/2006,
por Fred.
Não há dúvida que problemas de Usabilidade surgem nas mais variadas interfaces. A foto que se segue exibe 8 vulgares caixas de correio.

Ao contrário do que se esperava, as tampas abrem de baixo para cima em vez de cima para baixo.

Reparem agora a posição do corpo que é necessária adquirir para aceder às caixas inferiores. Consideram que é ergonómico? Imaginem agora pessoas com mais idade, com alguns problemas de movimento / musculares, a tentarem aceder ao seu correio?

De facto, algo tão simples como ver o correio pode tornar-se uma tarefa muito complicada. Mais uma vez, põe-se a questão: Custava muito ter posto as tampas das caixas ao contrário (por acaso não, foi uma opção feita durante a montagem).
Escrito na categoria de Usabilidade, Mundo Real em 30/05/2006,
por Daniel.
De vez em quando, encontro um exemplo de boa usabilidade. Desta vez, a localização dos botões de um elevador. Não cá em Portugal, infelizmente (não que cá não os haja!), mas no edifício do parlamento da Austrália, em Canberra. O edifício em si é muito giro, numa envolvente bonita. E, quando o parlamento e o senado não estão em sessão, pode-se visitar, o que fiz quando estive na Austrália a participar na conferência IUI’06 - International Conference on Intelligent User Interfaces.

Depois de visitar o interior do edifício, decidi apanhar o elevador para o telhado, de onde me tinham dito teria uma vista previlegiada sobre a capital. O elevador tem duas portas: uma por onde se entra dentro do edifício, e outra onde se sai no telhado. Estas portas, ao contrário do que é normal em casos semelhantes, encontram-se não uma à frente da outra, mas sim em paredes adjacentes.
Quando entrei no elevador, pressionei os botões à minha direita, e rapidamente pude visitar o verdejante telhado (sim, está coberto de relvado!). A minha surpresa deu-se quando voltei a entrar no elevador e, seguindo o mesmo instinto da primeira vez pressionei os botões… à minha direita! Prevendo justamente que a entrada se faria por duas portas diferentes, e para evitar confusões desnecessárias, os botões estavam duplicados, encontrando-se cada conjunto na mesma posição relativa para cada uma das portas! Da primeira vez que usei o elevador nem tinha reparado no segundo conjunto de botões. Se este não estivesse lá, teria decerto reentrado no elevador e tentado pressionar um botão à minha direita num local em que nenhum existia.

Um pequeno detalhe, de custo relativamente baixo, mas que evitou já decerto hesitações e enganos. Já agora, a ordem dos números também era a normal e esperada, facilitando ainda mais o processo. Se alguma coisa podia ser melhorada, seria a disposição dos botões: horizontais num conjunto e verticais noutro. O que mostra que nunca é demais fazer vários testes com vários peritos e utilizadores para que não fiquem alguns aspectos por considerar.
Escrito na categoria de Usabilidade, Mundo Real em 17/03/2006,
por Daniel.
Apesar de muito se falar da de aplicações informáticas, não convém esquecer como este é um conceito que se aplica a tudo aquilo com que podemos interagir, por muito low-tech que seja [1]. Neste caso, uma manteigueira…
Recentemente visitei um dos meus familiares. Na hora do pequeno-almoço, fui preparar a minha costumeira torrada. A torradeira até se usava sem grandes problemas. Estes apareceram onde eu menos esperava: na manteigueira! É espantoso como até algo tão simples pode sofrer de tantos problemas de usabilidade e como estes influenciam a sua utilização. Antes de mais, para ajudar a perceber, cá está uma fotografia da mesma:

Bonita, de vidro, com um aspecto simpático… Mas infelizmente, parecem ter sido apenas esses os aspectos que quem a desenhou teve em conta. O primeiro problema (grave!) de usabilidade sente-se assim que a tentamos abrir. De facto, o “carrapito” no centro da tampa pode ser muito estético, mas é completamente inadequado para tal. É curto e afunila para cima, justamente na direcção em que deveria haver resistência ao movimento, para pegarmos na tampa em segurança. E, claro, sendo de vidro, escorrega. Não que isso fizesse falta, pois a inevitável gordura que acaba por aparecer neste género de coisas complica ainda mais a operação… Resultado: uma tampa no chão, se lhe conseguirmos, de todo, pegar. A solução: agarrar a tampa pela zona de contacto com o corpo da manteigueira, algo completamente adequado e que provavelmente contribuirá para uma lubrificação adicional do seu exterior…

Mas as coisas não ficam por aqui. É que um pacote de manteiga normal, dos que compramos no supermercado, não cabe dentro da manteigueira! É rectangular e não redondo. Isso até podia ser resolvido caso a manteigueira tivesse um tamanho suficientemente grande. Mas como não o tem, cabe apenas meio pacote de cada vez, que tem que se cortar e separar do resto. O excedente ficará guardado no seu invólucro de papel metalizado, agora um bocado danificado devido ao uso da faca, até fazer falta.
Para evitar isto nem era preciso ser um perito em usabilidade. Bastava que quem desenhou a manteigueira tivesse tido em atenção um princípio querido aos designers: a forma-função. As coisas não são criadas por motivos meramente estéticos, mas sim para cumprir uma determinada função. A forma que toma deve reflectir isso. No desenho da manteigueira, ficámo-nos pela forma. A função, como é tantas vezes o caso, ficou esquecida.
Referências
- Donald Norman, The Design of Everyday Things. Basic Books, 2002. ISBN: 0465067107
Já lá vão muitos anos desde que liguei o meu velho ZX Spectrum pela última vez. Foram muitas, as horas bem passadas à frente de um monitor de fósforo verde, a jogar Bomb Jack ou Tetris. E tal como eu, muita gente assim passou as tardes durante alguns anos. Não é pois de estranhar que agora, passados 20 anos, tenha surgido uma onda revivalista desses jogos. Aproveitando que os jovens de então são agora adultos com algum poder de compra, têm aparecido todo o género de produtos destinados a relembrar aqueles dias de adolescência. No respeitante aos jogos de computador, vemos agora surgir emuladores, remakes dos jogos mais famosos, e publicações sobre esses jogos. Foi em busca de uma dessa publicações que me deparei com um dos piores descalabros de usabilidade na Web, infelizmente tão comum: os locais inteiramente criados em Flash.
A revista Retro Gamer, inglesa, é uma boa publicação. Foca aspectos interessantes dos jogos de outrora, entrevista os seus criadores e discute o que aconteceu a certos jogos ou às plataformas em que estes corriam. Infelizmente, o local que lhe dá apoio, retrogamer.net, não partilha dessa qualidade.
A primeira coisa com que somos confrontados ao aceder ao local é uma página de apresentação completamente inútil. Diz-nos que estamos no local de algo chamado Retro Gamer e obriga-nos a um click para prosseguir. Mas já sabíamos isto pela url, ou não? E, de qualquer modo, mesmo que da primeira vez não fosse esse o caso, sê-lo-á certamente todas as outras. Em suma, um click desnecessário e irritante em todas as visitas, bem como um desperdício de tempo e largura de banda.

Mas o pior ainda está para vir. Após entrar no local propriamente dito, verificamos que todo ele está feito em Flash. Sim, todo. Não existe apenas uma animação algures na página, no meio do restante conteúdo. Em vez disso, todo o local, do conteúdo à navegação está em Flash. Já muito se escreveu sobre os malefícios do flash, mas esta é uma das suas piores manifestações. Senão, vejamos:
- Imaginemos que queria enviar a alguém o elo para a “página” dos contactos. Num local normal, bastaria ir até essa página e copiar a url. Neste caso, não existem páginas propriamente ditas, apenas várias secções dentro da aplicação flash. Não há forma de referir uma sub-parte desta.

- Para onde vão os elos? Alguns saltam para fora do local (numa janela de pop-up, mas isso é matéria para outro artigo…) sem aviso prévio. Não termos forma de saber o que irá acontecer ao seguir um elo porque, não se tratando de um elo numa normal página HTML, a barra de estado do navegador nada nos mostra. Já agora, também não consigo saber se já visitei uma determinada secção do local ou não, visto que os elos não mudam de cor para indicar quais os já seguidos…
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Como se pode ver na minha fotografia neste local, sofro de alguma falta de vista. Tendo, pois, a aumentar o tamanho do tipo de letra de muitos locais, para melhor os conseguir ler. Isso é impossível numa aplicação Flash, em que todos os tamanhos são pré-definidos e inalteráveis. Lá tive que me aproximar do monitor para conseguir encontrar mais informação sobre esta revista que tanto me agrada.
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O motivo inicial da minha visita foi tentar encomendar um número atrasado da revista. O meu primeiro instinto foi procurar no google por “retro gamer magazine back issues”. Resultados relevantes: nenhum. Porquê? Porque ao estar completamente dentro de uma aplicação Flash, o local não tem informação textual acessível sem correr essa aplicação. Não pode ser indexado adequadamente pelos motores de pesquisa, o que dificulta a sua utilização. Seria de pensar que o facto de menos potenciais clientes encontrarem o que procuram levaria a repensar a forma como o local está feito…
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Frustrado, mas tendo encontrado finalmente o local e ultrapassado a página de apresentação, quis encontrar o elo que levaria à página dos números atrasados. Que maneira mais fácil do que um find na página em busca do texto “back issues”? Infelizmente, e pelas mesmas razões do tópico acima, uma tal pesquisa é impossível… Tivesse eu dificuldades visuais maiores e necessidade de recorrer a um leitor de ecrã ou a uma linha Braille para aceder ao conteúdo do local, isso seria completamente impossível pelas mais uma vez mesmas razões: o texto não é acessível fora da aplicação.
- Tendo finalmente consultado a página que procurava, decidi consultar o resto do local. Infelizmente, pressionar o botão de ‘Retroceder’, no navegador, conduziu não à “página” anterior dentro do local, mas para fora deste! A aplicação Flash, tratando-se de um todo monolítico, não permite que a navegação normal fornecida pelo navegador se comporte como esperado. Toda a aplicação Flash é uma única página, aos olhos do navegador.
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Se quiser voltar a consultar o local, por exemplo, no meu PDA ou telemóvel, não terei acesso a absolutamente nada: não tenho um plugin de Flash instalado nestes dispositivos. Algumas pessoas não os têm no seu navegador no desktop, também. O site encontra-se completamente vedado a esses utilizadores.
- Finalmente, o local não é tão estético como poderia ser, uma vez que muito espaço é desperdiçado em volta da aplicação Flash. Isto porque esta tem dimensões fixas que não se adaptam ao tamanho da janela do navegador ou à resolução do monitor (eu tê-lo-ia usado para ver o local com tipos de letra maiores, por exemplo).

E tudo isto para quê? Para ter duas ou três animações discretas a funcionar? Valerá isso a pena tendo em conta os problemas de usabilidade que podem levar à perda de clientes? O que mais choca é que tudo o que o local contém poderia ser feito sem grande esforço (é um local bastante simples) usando os standards da Web. Até as animações poderiam ser mantidas (sendo questionável se deveriam ser de todo usadas ou não). Isto resultaria num local mais acessível, portável e usável, com todas as vantagens que daí poderiam advir.
O problema não foi ter sido usado Flash. Foi a forma como foi usado, de modo completamente desnecessário. Há casos em que certas funcionalidades não conseguem ser obtidas apenas recorrendo aos standards. Nesse caso justifica-se a utilização de Flash. Em substituição integral do conteúdo do local, incluindo toda a informação textual, esse nunca é o caso. Apenas um desinteresse completo de quem criou o local explica esta situação, ou um desconhecimento generalizado das tecnologias usadas na Web (e nesse caso, se calhar está no emprego errado…)
Referências
- Flash: 99% Bad, Jakob Nielsen’s Alertbox, 2000.
- Top Ten Web Design Mistakes of 2005, Jakob Nielsen’s Alertbox, 2002.
- Flash and Web-Based Applications, Jakob Nielsen’s Alertbox, 2002.