Escrito na categoria de Portabilidade em 08/03/2006,
por Fred.
Há algum tempo atrás, estive a testar uma ferramenta para Gestão de Conteúdos que estava a impressionar-me pela positiva. É um produto comercial, a um preço acessível e com um conjunto de funcionalidades bastante interessantes.
De seguida, tentei correr a aplicação utilizando o FireFox (o meu navegador Internet favorito). Apesar da navegação geral estar disponível, o ecrã de edição de conteúdos (WYSIWYG, “What You See Is What You Get”) não apresentou funcionalidade. Não foi nenhuma surpresa quando tentei com outros navegadores (Netscape, Mozilla, Opera e Safari) e obtive o mesmo resultado. Conclusão: o gestor de conteúdos só funciona com o Internet Explorer. Seguindo a definição de Portabilidade, põe-se a questão: É um problema?
Quando o alvo dos locais Internet se destina a colaboradores de empresas, talvez o problema não seja grave. Apesar da elevada taxa de crescimento do FireFox, esta é mais significativa para utilizadores domésticos [1]. Utilizadores de empresas tornam-se mais conservadores devido às imposições da gestão da empresa, onde o Internet Explorer continua a liderar. No entanto, o atraso significativo no lançamento da versão 7.0, do navegador da Microsoft, dá espaço e oportunidade ao FireFox de crescer também em empresas / instituições [2].
E no caso de utilizadores domésticos? Considerem que são utilizadores do FireFox e que utilizam um desktop ou um portátil com uma resolução de 1024×768.
Imaginem agora que estavam interessados em saber mais informações sobre o espaço comercial de Alcochete, em Lisboa, o FreePort. Descobrem o elo e acedem à primeira página onde são confrontados com uma interface que ocupa pouco mais de 30% da área do ecrã. Tudo o que está disponível resume-se a texto, imagens e elos totalmente imperceptíveis. O que fariam? Na minha opinião, das duas uma: (1) se querem realmente ver o local, dão-se ao trabalho de lançar o Internet Explorer e de abrir novamente a página nesse navegador (…que mau aspecto…); (2) se for um interesse reduzido, vão-se embora e o FreePort pode acabar por perder um potencial cliente.

Suponham agora que chegou finalmente a altura de ir de férias para o Algarve. Estão com pouco dinheiro e decidem ir de autocarro. Como têm Internet e sabem que é possível fazer reservas e pagamentos on-line, acedem ao local da Rede de Expressos. Uma vez na página inicial, decidem ver os horários. São então confrontados com uma mensagem que basicamente diz…”só fornecemos este serviço se fores um utilizador do Internet Explorer!”. Como reagem perante isto? Ainda por cima, a dependência do Internet Explorer existe apenas para automatizar um pequeno aspecto da pesquisa de autocarros, que facilmente se poderia ter conseguido de forma standard, se tivesse havido interesse em tal.
Hoje em dia, quando se desenvolve um local que só funciona em Internet Explorer, corre-se o risco de rejeitar mais de 34% da potencial população [3]. Em empresas o problema pode de facto não ser significativo, mas para o caso de utilizadores domésticos?
Os esforços de instituições como a W3C na produção de standards para a criação de navegadores e locais Internet é cada vez mais significativo. No entanto, há sempre o problema de existirem vários standards e cada produtor (de navegadores Internet) escolher aquele que acha mais adequado. Os navegadores poderão sempre ter este tipo de problemas, mas com o passar do tempo têm tendência a reduzir e são cada vez mais fáceis de ultrapassar (mas claro, dá sempre mais trabalho). Não valerá a pena o esforço de implementação / portabilidade de um local a vários navegadores, comparado com uma possível rejeição de 34% das pessoas?
No final, vai depender do objectivo do local…mas nos dois casos exemplificados, justificava-se o esforço.
Referências
[1] Firefox já está em 20% dos computadores europeus, Exame Informática
[2] Polícia francesa troca IE por Firefox, Exame Informática
[3] Browser Statistics, W3Schools
Já lá vão muitos anos desde que liguei o meu velho ZX Spectrum pela última vez. Foram muitas, as horas bem passadas à frente de um monitor de fósforo verde, a jogar Bomb Jack ou Tetris. E tal como eu, muita gente assim passou as tardes durante alguns anos. Não é pois de estranhar que agora, passados 20 anos, tenha surgido uma onda revivalista desses jogos. Aproveitando que os jovens de então são agora adultos com algum poder de compra, têm aparecido todo o género de produtos destinados a relembrar aqueles dias de adolescência. No respeitante aos jogos de computador, vemos agora surgir emuladores, remakes dos jogos mais famosos, e publicações sobre esses jogos. Foi em busca de uma dessa publicações que me deparei com um dos piores descalabros de usabilidade na Web, infelizmente tão comum: os locais inteiramente criados em Flash.
A revista Retro Gamer, inglesa, é uma boa publicação. Foca aspectos interessantes dos jogos de outrora, entrevista os seus criadores e discute o que aconteceu a certos jogos ou às plataformas em que estes corriam. Infelizmente, o local que lhe dá apoio, retrogamer.net, não partilha dessa qualidade.
A primeira coisa com que somos confrontados ao aceder ao local é uma página de apresentação completamente inútil. Diz-nos que estamos no local de algo chamado Retro Gamer e obriga-nos a um click para prosseguir. Mas já sabíamos isto pela url, ou não? E, de qualquer modo, mesmo que da primeira vez não fosse esse o caso, sê-lo-á certamente todas as outras. Em suma, um click desnecessário e irritante em todas as visitas, bem como um desperdício de tempo e largura de banda.

Mas o pior ainda está para vir. Após entrar no local propriamente dito, verificamos que todo ele está feito em Flash. Sim, todo. Não existe apenas uma animação algures na página, no meio do restante conteúdo. Em vez disso, todo o local, do conteúdo à navegação está em Flash. Já muito se escreveu sobre os malefícios do flash, mas esta é uma das suas piores manifestações. Senão, vejamos:
- Imaginemos que queria enviar a alguém o elo para a “página” dos contactos. Num local normal, bastaria ir até essa página e copiar a url. Neste caso, não existem páginas propriamente ditas, apenas várias secções dentro da aplicação flash. Não há forma de referir uma sub-parte desta.

- Para onde vão os elos? Alguns saltam para fora do local (numa janela de pop-up, mas isso é matéria para outro artigo…) sem aviso prévio. Não termos forma de saber o que irá acontecer ao seguir um elo porque, não se tratando de um elo numa normal página HTML, a barra de estado do navegador nada nos mostra. Já agora, também não consigo saber se já visitei uma determinada secção do local ou não, visto que os elos não mudam de cor para indicar quais os já seguidos…
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Como se pode ver na minha fotografia neste local, sofro de alguma falta de vista. Tendo, pois, a aumentar o tamanho do tipo de letra de muitos locais, para melhor os conseguir ler. Isso é impossível numa aplicação Flash, em que todos os tamanhos são pré-definidos e inalteráveis. Lá tive que me aproximar do monitor para conseguir encontrar mais informação sobre esta revista que tanto me agrada.
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O motivo inicial da minha visita foi tentar encomendar um número atrasado da revista. O meu primeiro instinto foi procurar no google por “retro gamer magazine back issues”. Resultados relevantes: nenhum. Porquê? Porque ao estar completamente dentro de uma aplicação Flash, o local não tem informação textual acessível sem correr essa aplicação. Não pode ser indexado adequadamente pelos motores de pesquisa, o que dificulta a sua utilização. Seria de pensar que o facto de menos potenciais clientes encontrarem o que procuram levaria a repensar a forma como o local está feito…
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Frustrado, mas tendo encontrado finalmente o local e ultrapassado a página de apresentação, quis encontrar o elo que levaria à página dos números atrasados. Que maneira mais fácil do que um find na página em busca do texto “back issues”? Infelizmente, e pelas mesmas razões do tópico acima, uma tal pesquisa é impossível… Tivesse eu dificuldades visuais maiores e necessidade de recorrer a um leitor de ecrã ou a uma linha Braille para aceder ao conteúdo do local, isso seria completamente impossível pelas mais uma vez mesmas razões: o texto não é acessível fora da aplicação.
- Tendo finalmente consultado a página que procurava, decidi consultar o resto do local. Infelizmente, pressionar o botão de ‘Retroceder’, no navegador, conduziu não à “página” anterior dentro do local, mas para fora deste! A aplicação Flash, tratando-se de um todo monolítico, não permite que a navegação normal fornecida pelo navegador se comporte como esperado. Toda a aplicação Flash é uma única página, aos olhos do navegador.
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Se quiser voltar a consultar o local, por exemplo, no meu PDA ou telemóvel, não terei acesso a absolutamente nada: não tenho um plugin de Flash instalado nestes dispositivos. Algumas pessoas não os têm no seu navegador no desktop, também. O site encontra-se completamente vedado a esses utilizadores.
- Finalmente, o local não é tão estético como poderia ser, uma vez que muito espaço é desperdiçado em volta da aplicação Flash. Isto porque esta tem dimensões fixas que não se adaptam ao tamanho da janela do navegador ou à resolução do monitor (eu tê-lo-ia usado para ver o local com tipos de letra maiores, por exemplo).

E tudo isto para quê? Para ter duas ou três animações discretas a funcionar? Valerá isso a pena tendo em conta os problemas de usabilidade que podem levar à perda de clientes? O que mais choca é que tudo o que o local contém poderia ser feito sem grande esforço (é um local bastante simples) usando os standards da Web. Até as animações poderiam ser mantidas (sendo questionável se deveriam ser de todo usadas ou não). Isto resultaria num local mais acessível, portável e usável, com todas as vantagens que daí poderiam advir.
O problema não foi ter sido usado Flash. Foi a forma como foi usado, de modo completamente desnecessário. Há casos em que certas funcionalidades não conseguem ser obtidas apenas recorrendo aos standards. Nesse caso justifica-se a utilização de Flash. Em substituição integral do conteúdo do local, incluindo toda a informação textual, esse nunca é o caso. Apenas um desinteresse completo de quem criou o local explica esta situação, ou um desconhecimento generalizado das tecnologias usadas na Web (e nesse caso, se calhar está no emprego errado…)
Referências
- Flash: 99% Bad, Jakob Nielsen’s Alertbox, 2000.
- Top Ten Web Design Mistakes of 2005, Jakob Nielsen’s Alertbox, 2002.
- Flash and Web-Based Applications, Jakob Nielsen’s Alertbox, 2002.