Usabilidade no Mundo Real: Manteigueira

Escrito na categoria de Usabilidade, Mundo Real em 17/03/2006, por Daniel.

Apesar de muito se falar da de aplicações informáticas, não convém esquecer como este é um conceito que se aplica a tudo aquilo com que podemos interagir, por muito low-tech que seja [1]. Neste caso, uma manteigueira…

Recentemente visitei um dos meus familiares. Na hora do pequeno-almoço, fui preparar a minha costumeira torrada. A torradeira até se usava sem grandes problemas. Estes apareceram onde eu menos esperava: na manteigueira! É espantoso como até algo tão simples pode sofrer de tantos problemas de usabilidade e como estes influenciam a sua utilização. Antes de mais, para ajudar a perceber, cá está uma fotografia da mesma:

Manteigueira

Bonita, de vidro, com um aspecto simpático… Mas infelizmente, parecem ter sido apenas esses os aspectos que quem a desenhou teve em conta. O primeiro problema (grave!) de usabilidade sente-se assim que a tentamos abrir. De facto, o “carrapito” no centro da tampa pode ser muito estético, mas é completamente inadequado para tal. É curto e afunila para cima, justamente na direcção em que deveria haver resistência ao movimento, para pegarmos na tampa em segurança. E, claro, sendo de vidro, escorrega. Não que isso fizesse falta, pois a inevitável gordura que acaba por aparecer neste género de coisas complica ainda mais a operação… Resultado: uma tampa no chão, se lhe conseguirmos, de todo, pegar. A solução: agarrar a tampa pela zona de contacto com o corpo da manteigueira, algo completamente adequado e que provavelmente contribuirá para uma lubrificação adicional do seu exterior…

Destapar a manteigueira

Mas as coisas não ficam por aqui. É que um pacote de manteiga normal, dos que compramos no supermercado, não cabe dentro da manteigueira! É rectangular e não redondo. Isso até podia ser resolvido caso a manteigueira tivesse um tamanho suficientemente grande. Mas como não o tem, cabe apenas meio pacote de cada vez, que tem que se cortar e separar do resto. O excedente ficará guardado no seu invólucro de papel metalizado, agora um bocado danificado devido ao uso da faca, até fazer falta.

Para evitar isto nem era preciso ser um perito em usabilidade. Bastava que quem desenhou a manteigueira tivesse tido em atenção um princípio querido aos designers: a forma-função. As coisas não são criadas por motivos meramente estéticos, mas sim para cumprir uma determinada função. A forma que toma deve reflectir isso. No desenho da manteigueira, ficámo-nos pela forma. A função, como é tantas vezes o caso, ficou esquecida.

Referências

  1. Donald Norman, The Design of Everyday Things. Basic Books, 2002. ISBN: 0465067107

Portabilidade na Web

Escrito na categoria de Portabilidade em 08/03/2006, por Fred.

Há algum tempo atrás, estive a testar uma ferramenta para Gestão de Conteúdos que estava a impressionar-me pela positiva. É um produto comercial, a um preço acessível e com um conjunto de funcionalidades bastante interessantes.

De seguida, tentei correr a aplicação utilizando o FireFox (o meu navegador Internet favorito). Apesar da navegação geral estar disponível, o ecrã de edição de conteúdos (WYSIWYG, “What You See Is What You Get”) não apresentou funcionalidade. Não foi nenhuma surpresa quando tentei com outros navegadores (Netscape, Mozilla, Opera e Safari) e obtive o mesmo resultado. Conclusão: o gestor de conteúdos só funciona com o Internet Explorer. Seguindo a definição de Portabilidade, põe-se a questão: É um problema?

Quando o alvo dos locais Internet se destina a colaboradores de empresas, talvez o problema não seja grave. Apesar da elevada taxa de crescimento do FireFox, esta é mais significativa para utilizadores domésticos [1]. Utilizadores de empresas tornam-se mais conservadores devido às imposições da gestão da empresa, onde o Internet Explorer continua a liderar. No entanto, o atraso significativo no lançamento da versão 7.0, do navegador da Microsoft, dá espaço e oportunidade ao FireFox de crescer também em empresas / instituições [2].

E no caso de utilizadores domésticos? Considerem que são utilizadores do FireFox e que utilizam um desktop ou um portátil com uma resolução de 1024×768.

Imaginem agora que estavam interessados em saber mais informações sobre o espaço comercial de Alcochete, em Lisboa, o FreePort. Descobrem o elo e acedem à primeira página onde são confrontados com uma interface que ocupa pouco mais de 30% da área do ecrã. Tudo o que está disponível resume-se a texto, imagens e elos totalmente imperceptíveis. O que fariam? Na minha opinião, das duas uma: (1) se querem realmente ver o local, dão-se ao trabalho de lançar o Internet Explorer e de abrir novamente a página nesse navegador (…que mau aspecto…); (2) se for um interesse reduzido, vão-se embora e o FreePort pode acabar por perder um potencial cliente.

Freeport

Suponham agora que chegou finalmente a altura de ir de férias para o Algarve. Estão com pouco dinheiro e decidem ir de autocarro. Como têm Internet e sabem que é possível fazer reservas e pagamentos on-line, acedem ao local da Rede de Expressos. Uma vez na página inicial, decidem ver os horários. São então confrontados com uma mensagem que basicamente diz…”só fornecemos este serviço se fores um utilizador do Internet Explorer!”. Como reagem perante isto? Ainda por cima, a dependência do Internet Explorer existe apenas para automatizar um pequeno aspecto da pesquisa de autocarros, que facilmente se poderia ter conseguido de forma standard, se tivesse havido interesse em tal.

Rede Nacional de Expressos

Hoje em dia, quando se desenvolve um local que só funciona em Internet Explorer, corre-se o risco de rejeitar mais de 34% da potencial população [3]. Em empresas o problema pode de facto não ser significativo, mas para o caso de utilizadores domésticos?

Os esforços de instituições como a W3C na produção de standards para a criação de navegadores e locais Internet é cada vez mais significativo. No entanto, há sempre o problema de existirem vários standards e cada produtor (de navegadores Internet) escolher aquele que acha mais adequado. Os navegadores poderão sempre ter este tipo de problemas, mas com o passar do tempo têm tendência a reduzir e são cada vez mais fáceis de ultrapassar (mas claro, dá sempre mais trabalho). Não valerá a pena o esforço de implementação / portabilidade de um local a vários navegadores, comparado com uma possível rejeição de 34% das pessoas?

No final, vai depender do objectivo do local…mas nos dois casos exemplificados, justificava-se o esforço.

Referências

[1] Firefox já está em 20% dos computadores europeus, Exame Informática

[2] Polícia francesa troca IE por Firefox, Exame Informática

[3] Browser Statistics, W3Schools